A tragédia dos terremotos que atingiram a Venezuela no dia 24 de junho completa cinco dias com números que só aumentam — e o colapso do sistema funerário se tornou um dos capítulos mais desumanos desta crise. O balanço mais recente, divulgado neste domingo (29), aponta 1.450 mortos, 3.338 feridos e 3.142 famílias desabrigadas. Mas o número mais alarmante é o de desaparecidos: mais de 50 mil pessoas seguem sem localização, segundo a ONU e plataformas cidadãs de rastreamento.
O Instituto Médico Legal (IML) de Caracas está completamente superlotado — e os corpos não param de chegar. Segundo relatos do jornalista Yan Boechat, enviado especial da Band ao país, a capacidade das unidades foi ultrapassada já nos primeiros dias. Corpos estão sendo mantidos ao ar livre, expostos a temperaturas de até 32°C, muitos já em avançado estado de decomposição. As filas de familiares para identificação já ultrapassam nove horas de espera.
Faltam carros funerários. Em apenas uma hora, a agência AFP registrou a chegada de três caminhonetes particulares transportando corpos envoltos em lençóis e sacos improvisados. Um funcionário do Serviço Nacional de Medicina Legal confirmou que cerca de 200 corpos deram entrada somente a partir de sexta-feira (26).
Yessica Mendoza, de 43 anos, é o retrato do desespero. Sem atendimento do sistema funerário, ela mesma transportou o corpo da filha, Yesimar Rodríguez, de 25 anos, e do genro, Jhomel Anaya, de 26, em um veículo particular até Caracas. "Os mortos estavam no chão", contou, referindo-se ao hospital de Catia La Mar, uma das áreas mais devastadas. "Vamos cremá-los porque já estão em estágio muito avançado e não podemos fazer um velório."
Os terremotos gêmeos — um doblete sísmico de magnitudes 7,2 e 7,5 com apenas 39 segundos de intervalo — tiveram epicentro nas cidades de San Felipe (Yaracuy) e Yumare, no norte do país. A cidade de La Guaira foi a mais destruída, com 189 edifícios totalmente colapsados. Nesta segunda-feira (29), um novo tremor de magnitude 4,6 voltou a sacudir a região, aumentando o pânico entre a população.
Mais de 1.000 resgatistas internacionais estão em solo venezuelano, mas a chamada "janela de ouro" de 72 horas para encontrar sobreviventes já se encerrou. Ainda assim, no sábado (27), um menino de 11 anos foi resgatado com vida dos escombros — um fio de esperança em meio à tragédia. A ONU estima que até 6,76 milhões de pessoas tenham sido afetadas pelos terremotos.
Créditos (Imagem de capa): Foto: Yan Boechat