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Que destino é dado aos cadáveres com batimentos cardíacos?

Dilemas éticos e legais atravessam casos de corpos que, apesar da morte cerebral, continuam a apresentar funções vitais

Que destino é dado aos cadáveres com batimentos cardíacos?
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Definições tradicionais de vida e morte são desafiadas pelos "cadáveres com batimentos cardíacos" — pessoas que têm diagnóstico de morte cerebral, mas órgãos que ainda mantêm algumas funções e reações físicas que continuam se manifestando, como sudorese e febre. Em casos mais raros, eles ficam"vivos" por meses ou até décadas.

Historicamente, segundo matéria de Zaria Gorvett para a BBC Future, costumava ser difícil determinar se alguém estava, de fato, sem vida. Na França oitocentista, métodos peculiares eram utilizados, como fixar pinças aos mamilos ou inserir sanguessugas no orifício anal do paciente. Em outros lugares, havia quem gritasse três vezes o nome do possível morto ou pressionasse um espelho sob seu nariz.

Desde a década de 1950, quando médicos em todo o planeta começaram a notar, com o uso do eletroencefalograma, que pacientes antes considerados em coma estavam, na verdade, sem sinal de atividade cerebral, a distinção entre vida e morte se tornou mais complexa. Tecnologias como ventiladores mecânicos e desfibriladores, capazes de manter o corpo funcional mesmo após a perda completa da atividade cerebral, foram introduzidas na prática médica. 

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Hoje, para que um diagnóstico de morte cerebral seja feito, vários critérios rigorosos devem ser atendidos. Isso inclui a ausência de resposta a estímulos verbais e dolorosos, e a incapacidade de respirar sem assistência mecânica. Esses avanços, no entanto, não impedem que o debate em torno do tema permaneça intenso.

Alguns especialistas argumentam que a morte cerebral não deve ser considerada morte, uma vez que alguns corpos podem continuar a funcionar de maneira bastante normal durante semanas, meses ou anos, em casos extremos, depois do diagnóstico.

Esses "cadáveres com batimentos cardíacos" são especialmente importantes na área de transplantes de órgãos. Em função deles foi criada uma nova especialidade médica, a "gestão de cadáveres doadores" — o corpo é "enganado", pensa que está tudo bem, e os órgãos são mantidos em condições ideais até a operação. A prática, contudo, vem suscitando debates éticos sobre o uso de corpos declarados mortos para esses fins. Não estaria a medicina moderna tratando seres humanos como "coleções de órgãos"?

A controvérsia também se estende às implicações legais e filosóficas da morte. Nos Estados Unidos, por exemplo, algumas comunidades religiosas e minorias étnicas preferem que seus entes queridos sejam considerados sem vida apenas quando o coração parar de bater definitivamente e o corpo esfriar. Em contrapartida, há propostas para que a definição de morte seja ampliada e inclua a perda irreversível da personalidade e da consciência, permitindo que mais órgãos sejam disponibilizados para transplante.

No centro de muitas disputas legais, frisa a autora, está o direito de escolher sua própria definição de morte e o momento em que o suporte vital deve ser removido.

São simbólicos casos como o da estadunidense Marlise Muñoz, que, devido à gravidez, foi mantida em suporte vital após ser declarada com morte cerebral, em 2013. Muñoz, que era paramédica, havia dito ao marido que não gostaria de ser mantida viva artificialmente, em caso de morte cerebral. Ele solicitou a remoção do suporte, mas o hospital negou o pedido.

Mesmo depois de séculos de estudo e avanços, a humanidade ainda busca para a morte uma definição definitiva. Talvez ela nunca chegue.

Fonte/Créditos: Com informações de Zaria Gorvett / BBC Future

Créditos (Imagem de capa): Getty Images

Thaís Milena - Estagiária do Grupo Balo sob a supervisão de Heberton Lopes

Publicado por:

Thaís Milena - Estagiária do Grupo Balo sob a supervisão de Heberton Lopes

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